A implementação dos programas de Medicina Preventiva nas Faculdades de Medicina inicia-se em meados dos anos 50 do século XX, influenciados que foram pelos movimentos gerados a partir das reuniões e conferências seguindo as orientações emanadas de várias Conferências realizadas na época, sob patrocínio de organizações internacionais (Organização Mundial da Saúde, Organização Panamericana de Saúde, Milbank Memorial Fund, Fundação Kellog, Fundação Rockefeller).
Esses programas tinham como objetivo principal influir na formação dos médicos, na expectativa de que estes, ao se constituírem em líderes e agentes de mudança, influenciassem no redirecionamento da organização e prestação de serviços de saúde às populações. Tratava-se de um projeto de âmbito internacional, inserido em proposta de ampla reforma médica.
A incorporação deste ideário nas escolas brasileiras de medicina gerou importantes processos traduzidos que foram nos movimentos identificados como Medicina Preventiva, Medicina/Saúde Comunitária, Medicina Integral. Várias outras reuniões foram promovidas e diferentes propostas elaboradas, gerando sucessivas modificações nas ideias originais, que suscitaram influências nos conteúdos curriculares do ensino médico.
Foi nessa conjuntura que se reinstalou, na Faculdade de Medicina da USP, a ex-cadeira de Higiene e Medicina Preventiva, cuja transformação no atual Departamento de Medicina Preventiva (DMPr) deu-se com a Reforma Universitária de 1969. As décadas seguintes assistiram intensos movimentos, especialmente no Brasil, de formulação e reformulação destes programas. Acompanhando estes movimentos, as atividades do DMPr expandiram-se nos vários níveis de atuação acadêmica, compreendendo o ensino na graduação médica, a organização do programa de Residência Médica, a consolidação de linhas de pesquisa, a implantação do seu programa de pós-graduação stricto sensu e a extensão de serviços à comunidade. Todos estes programas e atuações estiveram, e estão, em consonância com o processo de constituição da área de Saúde Coletiva, denominação incorporada ao sistema acadêmico brasileiro por expandir estruturalmente a tradicional Saúde Pública.
A marcante presença do DMPr na esfera nacional foi marcada no processo, dos anos de 1970 e 1980, de constituição da chamada Reforma Sanitária e consolidação do Sistema Único de Saúde – SUS -, tanto nas suas formulações prévias, quanto na realização da VIII Conferência Nacional de Saúde na Lei Orgânica de Saúde de 1990 e no seu contínuo aprimoramento. Sua influência se fez presente, igualmente, no estabelecimento dos programas de Residência Médica em Medicina Preventiva, que no caso particular pode prover ao Estado conjunto significativo de sanitaristas para a gestão do sistema de saúde em São Paulo. Da mesma forma, teve papel marcante definição dos programas de Pós-Graduação estrito senso em Saúde Coletiva, destacando-se o fato do desenvolvimento de seu próprio programa ter alcançado níveis de excelência na avaliação promovida pela CAPES.
As importantes transformações operadas no âmbito interno da FMUSP, nos últimos anos, permitiram ao DMPr participar, com suas especificidades e possibilidades, nesses processos de mudança. Na década de 70 a criação e estabelecimento do Curso Experimental de Medicina, formulado em resposta a demandas que exigiam novas vagas no curso médico, envolveu diretamente todo o seu corpo docente. Embora desativado após alguns poucos anos de aplicação, os reflexos deste curso se fazem de forma permanente, contribuindo para o avanço e aprimoramento de novas propostas curriculares experimentadas pela unidade. Abriu a perspectiva bem-sucedida de participação do DMPr na prestação de serviços de saúde articulado ao ensino de graduação, pós-graduação estrito e lato senso no Centro de Saúde Escola Prof. Samuel Barnsley Pessoa. Desde esta época, observa-se uma progressiva articulação e integração interna e externa, coerente com o movimento do conjunto da Instituição, seja na redefinição de seus papéis na prestação de serviços no âmbito dos princípios do Sistema Único de Saúde, seja na ampliação de sua atuação no campo da pesquisa médico-sanitária, seja no contínuo aprimoramento do ensino de graduação, cuja expressão última de mudança se fez com a implantação do currículo nuclear e disciplinas optativas.
O DMPr participou, desde o seu início, das atividades do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMT), o qual enquanto centro interdepartamental, possuía docentes ligados a este Departamento e outros da FMUSP. Esta inserção propiciou, por meio das linhas de atuação tradicionais do IMT, o desenvolvimento de estudos da história natural de doenças endêmicas. Com o retorno do IMT à sua situação anterior ligada a Diretoria da FMUSP, estas linhas de atuação se veem novamente fortalecidas nas formas de participação do DMPr. Ao lado disto, a Preventiva, como é referido o Departamento, desempenha importante papel no sistema de Vigilância Epidemiológica Hospitalar, por conta da coordenação do Núcleo de Vigilância Epidemiológica do Hospital das Clínica, atividade esta que remonta à década dos 80 e que ganhou visibilidade maior no decorrer da pandemia da COVID-19. Ainda, dentro das iniciativas de apoiar e fortalecer, já no início deste século XXI, os programas da FMUSP, em articulação com a Diretoria da FMUSP e procurando cobrir importante lacuna de atuação do DMPr e da própria FMUSP, elaborou-se uma proposta de criação da área de conhecimento "Gestão de Serviços e Sistemas de Saúde e Administração Hospitalar" que vem sendo desenvolvida em conjunto com o Programa de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde (PROAHSA) do Sistema Hospital das Clínicas.
Com essas perspectivas e a partir de análises contínuas, os docentes do DMPr identificam, com otimismo, oportunidades para o desempenho e renovação das responsabilidades e na continuidade da integração interna e externa. Movimento este que possa conduzir uma adequada ampliação e atualização de suas atividades para aprimorar o ensino e a pesquisa em Saúde Coletiva, aqui voltados aos campos da Epidemiologia, Avaliação, Políticas e Gestão, Ciências Sociais e Humanas, áreas preocupadas em refletir e atender as enormes demandas sócio-sanitárias das populações em nosso país.